CPVI - Centro de Pesquisa da Visão Integrativa

Tel: (11) 3256 3368

E-mail: cpvi@cpvi.com.br

Quinta, 21 de Dezembro de 2017 - Bom dia!
Óculos / Lentes
Acupuntura
Artigos Diversos
Baixa Visão
Cirurgias Oculares
Dependências
Editorial
Espiritualidade
Exercícios Oculares
Funções dos olhos
Homeopatia
Iridologia
Medicina psicossomática
Palestras
Qualidade de Vida
Vídeos
Eventos
Links
Depoimentos
Faça sua adesão na CPVI

Medicina psicossomática

Conexões sócio-psicossomáticas e interdisciplinaridade na Área da Saúde: a ética da não-hegemonia de um saber.


O meu interesse maior ao escrever esse texto é propor uma reflexão e, se possível, uma direção ao que seria um olhar mais amplo sobre o adoecer humano, barrando a excessiva fragmentação presente na clínica, sem perder seu caráter científico. Logicamente, esse intuito nos coloca diante de pelo menos uma questão polêmica: o que realmente define o que é científico, considerando que a prática na área da saúde pode se basear em evidências ou em impressões. No entanto não pretendo aprofundar nesse aspecto.

Na Medicina Psicossomática da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - ABMP, a preocupação sempre foi a de permitir o questionamento, valorizar o concreto e o latente ou virtual, evitando o olhar linear, subespecializado, estritamente racional, cartesiano, unicausal, excludente, sem a presença da falta. Assim, diante do saber incompleto, com a convicção de que a teoria está aquém da clínica, permite-se a criatividade, o novo, onde o aprendizado e a produção do saber emergem das relações. É necessário que a prática clínica seja amparada na teoria e na técnica, que é específica e deveria ser dada, a priori, pelo curso de graduação.

A Psicossomática da ABMP foi criada essencialmente por médicos que se tornaram terapeutas, psicanalistas, como resposta ao crescimento vertiginoso de um olhar exclusivamente organicista, que freqüentemente excluía emoções, afetos e identificações presentes na cultura, nos hábitos familiares e normas sociais como fatores importantes no processo do adoecer humano. Com o passar do tempo, porém, tornou-se eminentemente uma especialidade da vertente psicológica, o que se observa pelo número expressivo de profissionais dessa área entre os sócios, pelo conteúdo dos trabalhos produzidos e pela programação dos eventos. Dessa forma, houve um desvio no sentido original da Medicina Psicossomática, que era exatamente articular os conhecimentos, propiciando um olhar mais amplo sobre o adoecer humano em contraposição à visão do paciente fatiado. Na verdade, esse desvio e, conseqüentemente, a crise de identidade porque passa a ABMP têm um substrato: o crescimento acentuado do conhecimento em todas as áreas, a importância e presença da tecnologia no nosso dia a dia, a dependência quase que absoluta dos meios de comunicação num mundo globalizado, o aumento das divisões técnicas de trabalho e a subespecialização progressiva, decorrente do saber regido por disciplinas. Tudo isso tem acentuado em muito a complexidade da assistência, ensino e pesquisa na área da saúde. Ao especificar a Psicossomática da ABMP, é essencial delimitar o seu campo doutrinário - ideológico - científico, já que as psicossomáticas são várias. Considerando as três vertentes do adoecer - biológica, psicológica e sociológica - no atual momento da ABMP, cabe a hegemonia de uma categoria profissional, ou do saber a ela vinculado, como se fosse, a priori, mais importante do que outra dentro do movimento associativo?

Nos últimos anos, tem-se ouvido e debatido sobre a crise da Psicossomática da ABMP, que se encontra numa encruzilhada. Esta criou um ramo com crescimento expressivo e de importância inquestionável: a Psicologia Médica, uma especialidade bem definida da vertente psicológica. No entanto, cabe a pergunta: a Psicossomática da ABMP é a Psicologia Médica? Reconhecendo a importância dessa especialidade, que conseguiu se institucionalizar em várias cidades brasileiras, e diante da constatação da crise, no sentido da perda da especificidade e identidade, por que passa a Psicossomática da ABMP, torna-se crucial a distinção entre as duas.

Vários sócios da ABMP têm dedicado grande parte do seu tempo e produção à Psicologia Médica contribuindo para o esvaziamento e fragilidade do movimento associativo. A definição da Psicologia Médica varia de autor para autor. É mais uma disciplina do curso médico. É a psicologia da prática médica que prepara psicologicamente o médico para compreender melhor o paciente. Tornou-se também uma disciplina para a psicologia, principalmente para o psicólogo atuante na área hospitalar.

Desde 2001, a partir do III Encontro de Regionais da ABMP, tem-se investido para delimitar a especificidade e identidade da Psicossomática da ABMP e, a partir daí, produzir em ensino, assistência e pesquisa com esse eixo definido, reconhecido socialmente por sua produção científica. Nas disciplinas específicas das vertentes do conhecimento - biológica, psicológica e sociológica - existem associações e Instituições com um conhecimento vertical de teoria e técnica especializada, bem sedimentada e sistematizada, e inserção social estabelecida. O lócus específico da Psicossomática da ABMP é construído a partir da contraposição à fragmentação decorrente dessa disciplinalização, possibilitando a produção de um conhecimento original, fruto das aproximações e possíveis trocas entre as três vertentes. Dessa forma, é possível que os profissionais atuantes na área da saúde façam uma escolha pela ABMP, a partir do momento em que ela marca claramente sua especificidade. É importante que a Medicina Psicossomática que surgiu para trazer a concepção do adoecer humano como multifatorial, defendendo a importância do biológico, do afeto e da cultura como essenciais na compreensão do binômio saúde doença, não se torne uma nova especialização, demandada pela cultura, mercado e modelo científico vigente. A excessiva fragmentação do saber, trazendo progressiva subespecialização, leva a um sentimento de valorização, reconhecimento e identidade.

Na discussão em torno da opção pela Psicossomática da ABMP de criar seu lócus na prática e na produção de um saber, não é possível um corporativismo que impeça aproximações e trocas entre as três vertentes do conhecimento. É importante deixar claro que não há de forma alguma a pretensão de se ter o pleno conhecimento destas, mas sim a de propiciar uma aproximação na discussão teórica e, principalmente, na construção do caso clínico, para que haja produção de um conhecimento novo, com uma ampliação do olhar do profissional da saúde sobre o adoecer humano. É preciso ter profissionais representantes das três vertentes com um saber específico, verticalizado, com a perspectiva de um complementar o saber do outro e tornar-se um aprendiz, desde que seja sensível, que faça parte do seu desejo e que permita o convívio. De forma concreta, é na construção do caso clínico que se tem a perspectiva da prática da Interdisciplinaridade, do trabalho em equipe, resgatando a importância do saber coletivo a partir das relações interprofissionais e profissionais de saúde - paciente. A produção do conhecimento horizontal torna-se possível a partir das relações da clínica, do saber articulado, sendo valorizado o saber do paciente e do profissional, singulares enquanto sujeitos.

Historicamente, a visão sobre o adoecer humano muda de acordo com as crenças. Inicialmente, o homem se sentia inteiramente submetido à natureza, sendo a saúde e a doença atribuídas aos deuses. Posteriormente, com o advento da ciência, do método científico e da tecnologia, criou-se a idéia de que o homem é capaz de modificar a natureza, de alguma forma, distanciando-se de suas leis, tornando-se mais individualista, com uma postura narcisista. É como se ele não tivesse nada a ver com o outro, com o meio e com o universo. O Homem passa a ter leis próprias. A harmonia entre ele e o meio ambiente perde a importância. Com a autonomia dos seus atos, cria-se a impressão de não dependência da natureza e, conseqüentemente, torna-se possível intervir nela de qualquer forma. Homem torna-se onipotente, como se fosse Deus.

O desenvolvimento científico refletido no progresso tecnológico - bastante sedutor - pode ser evidenciado em várias áreas do conhecimento. Na área da saúde, além de tornar possível a instrumentalização, a técnica especializada e a indústria do laboratório, traz o poder e o desenvolvimento da indústria farmacêutica. Na área da educação, manifesta-se através da postura das escolas que, ao invés de promover o desenvolvimento da capacidade crítica, de individualização e de uma posição ética do aluno diante da realidade, passa a valorizar apenas a informação e o volume de conhecimento (em detrimento da capacidade do aluno de filtrar esse conhecimento e emitir o seu próprio saber). Assim, o homem passa a agir como autômato, influenciado pela cultura do ter, do consumo, do lucro, à revelia do ser, da individualidade, do sujeito que se constitui a partir do outro.

Dentro desse processo, o profissional da saúde passa a ter pouco valor próprio, não valoriza sua percepção, seus sentidos, seus sentimentos e, portanto, não desenvolve a autocrítica. Com isso, a doença passa a ter importância maior do que o doente. Há um esvaziamento do sujeito. Tanto ele como a doença, passam a ser objetos das ações de saúde. A doença e o sintoma não são vistos como tendo um sentido, mas busca-se apenas pesquisá-los e publicá-los, instrumentalizá-los, tratá-los com medicação e, muitas vezes, extirpá-los a qualquer preço. Os benefícios do adoecer, do sintoma, como forma de parar, de ser escutado, cuidar e ser cuidado por um outro perdem o sentido. O que importa é o diagnóstico, a classificação, a produção, os números, o uso dos equipamentos de última geração e, por fim, a medicação e a cirurgia.

Tudo isso coloca o homem contemporâneo numa posição de não se olhar, de não olhar para o outro, quer seja paciente, colega, namorada, filho, pai ou mulher.

O modelo científico que se baseia nas disciplinas traz, por um lado, a idéia da sistematização com delimitação de um objeto de estudo e, por outro, a tendência à rigidez nas fronteiras entre as disciplinas, gerando a ilusão de saber completo. Quanto mais há a especialização e subespecialização, mais ocorre a tendência da fragmentação do conhecimento e subdivisão progressiva das tarefas de trabalho. Portanto, quanto mais uma disciplina se afina, se delimita e fragmenta, mais omite questionamentos e discussões além das fronteiras dentro das quais se situa. Passa a ser um dogma. A visão do adoecer, multifatorial e histórica, passa a ser desprezada, de forma reducionista, tendo valor e causalidade únicos. Não se incluem a biografia do sujeito, a estrutura e identificações com as gerações que o antecederam, os agentes e fatores circunstanciais, os atributos que herda dos seus pais ao nascer, a sua história sexual e orgânica e a sua inserção social. Desse processo também surge a postura excessivamente corporativista, com diminuição da possibilidade de trocas entre áreas de conhecimento.

A Interdisciplinaridade vem, de alguma forma, propor o questionamento nas relações, no sentido do interagir, do comunicar, do trocar, do agir comunicativo, da suspeita crítica, da complementaridade dos saberes, do investimento na construção de um conhecimento coletivo na área da saúde e na construção de uma linha de cuidado. Vem também reafirmar a importância das diferenças, da individualidade e especificidade nas relações profissional de saúde - paciente e entre os profissionais. Dessa forma, cria-se um clima para formação de equipes de integração, onde a hegemonia de um saber não é possível. Apesar da técnica estar sempre presente na discussão racional, a subjetividade, os conflitos nas relações interpessoais, a afetividade e a disputa de poder são inerentes ao convívio humano. Portanto, é essencial estar atento ao preconceito que muitas vezes impede de olhar e vivenciar as situações, impossibilitando a prática da interdisciplinaridade: esta é um desafio que investe na formação de vínculos e laços sociais. Além disso, propõe a existência de trocas entre os profissionais para que, na convivência, surja o aprendizado e, com isso, uma mudança do referencial teórico prático de cada categoria profissional.

A articulação entre os saberes faz com que haja uma diminuição da fragmentação e propicia um olhar sobre o sentido do sintoma e do adoecer, dando mais consistência à compreensão do binômio saúde - doença. No entanto, também gera riscos: a perda de identidade e especificidade das diversas categorias profissionais; a prática da desassistência, se ocorrer uma falta de responsabilização que faz com que ninguém assuma o doente, criando a desautorização e a clínica da omissão; uso inadequado da teoria e da técnica em detrimento da sedução do conhecimento da outra disciplina; falta de referência para o paciente, quando avaliado por vários profissionais simultaneamente; o surgimento dos conflitos nas relações profissional de saúde - paciente, interprofissionais, profissionais de saúde - Instituição. Além de lidar com questões técnicas, a equipe teria também a função de suporte sócio-afetivo entre seus membros.

Outra questão importante é que a discussão sobre a interdisciplinaridade não pode ficar restrita, isolada, departamentalizada. Desta forma, iria contra seus próprios princípios, que são os da convivência, da hierarquia e das trocas com a sociedade. Portanto, o novo olhar propiciaria uma mediação entre as disciplinas, uma articulação entre os saberes, sem a perda das práticas específicas das diversas categorias profissionais. Para que isto ocorra, é essencial a competência na área específica de atuação (quando se diz competência, o que conta é a pessoa do profissional e não simplesmente sua capacitação técnica).

É importante frisar ainda que a interdisciplinaridade tem de ser vista e praticada a partir do olhar dos profissionais, pois se não há um olhar de suspeita, de falta, do saber incompleto, de interesse e sensibilidade em relação ao outro, não há como haver trocas. Dessa forma, um novo objeto de estudo que partiria do consenso tornar-se-ia inviável. Portanto, antes de se pensar no convívio, na interdisciplinaridade praticada no externo, esta tem de estar no sujeito, pela presença da falta, que faz com que se demande um outro.

Faz-se necessário estabelecer um paradigma que possa gerir a produção de conhecimento, as práticas e ações interdisciplinares e o trabalho em equipe. Como exemplos cito a singularidade do paciente e do profissional - cada caso é um caso, as doenças são universalizáveis e os doentes singulares - e a importância do saber do paciente sobre seu adoecimento, essencial na condução do tratamento. É preciso definir a forma que cada profissional entra e sai da assistência em cada caso e como será o gerenciamento da assistência, para se evitar a desassistência. Ainda que, por tradição, o médico gerencie o caso, é a equipe que deverá determinar qual profissional assumirá essa função, a partir do contexto clínico do caso em questão.

Dessa forma, a ética do movimento associativo da ABMP passaria pela ausência do corporativismo exacerbado, pela possibilidade da inserção de profissionais atuantes na área da saúde, advindos das categorias representantes das três vertentes do adoecer humano - biológica, psicológica e sociológica. É necessário que essa inserção se dê de acordo com o que estabelece o Estatuto, que determinaria, além das formas de associação, também a possibilidade de se ocupar cargos em qualquer instância da Associação, seja regional ou nacional. É fundamental valorizar o surgimento de novas lideranças entre os sócios, investindo para que cada vez mais seja buscado o laço associativo em torno de idéias, e não pessoas. As idéias e as propostas deverão ter como norte as decisões nas Assembléias de Delegados, nos Encontros de Regionais e no Congresso Brasileiro. Dessa forma, é necessária clareza de que o movimento não é dos médicos, dos enfermeiros, dos psicólogos ou dos sociólogos, mas de todos, imbuídos de uma idéia. O que une os associados é essencialmente uma ideologia, uma missão científica - ideológica.